Contos edificantes: “A Haste da Cruz”

© Clément SACCOMANI / CIRIC
Vista nocturna de gente rezando en el Barrio de la Ensenada de la ciudad de Lima (Perú)

“O dia chegará em que seremos vítimas das mutilações feitas na haste da nossa cruz”

Conta‑nos uma lenda de antanho que a um homem a quem cumpria fazer grande jornada deram a carregar pesada cruz, dizendo‑lhe que ela o levaria à salvação.

Tendo feito pequena parte do trajeto, vencido e desanimado pelo cansaço, deliberou ele cortar um pedaço da longa haste de sua carga.

Mais aligeirado, pôs‑se de novo a caminho e jornadeou até o ponto em que a estrada subia por uma encosta longa e pedregosa. Ali sentiu que se lhe agravava o peso da cruz. Doíam‑lhe os ombros, tinha as pernas trôpegas, arfava e transudava.

Na irreflexão da impaciência, põe por terra o seu fardo e outra vez o mutila em sua haste.

Parte. Alcança o sopé do outeiro e se vê às margens de um rio sem ponte.

Só então observou que outros viajantes ali chegados levavam, também, pesadas cruzes de longas hastes e, mais resistentes e tolerantes, conservaram‑nas intactas.

Estes as estenderam de margem a margem e, fazendo‑as de pontilhões, atingiram o lado oposto e lá se foram.

Aquele, porém, que encurtara a haste de sua cruz viu que ela não lhe poderia prestar o mesmo auxílio. Tentando meter‑se rio adentro, desapareceu levado pelos redemoinhos da correnteza.

É límpida a lição da fábula. Todos os que vivemos a cortar, com golpes arbitrários, em nossos deveres e obrigações para com Deus, podemos levar, por algum tempo, vida mundanamente fácil, mas sempre enganosa. O dia chegará em que seremos vítimas das mutilações feitas na haste da nossa cruz.

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A partir de texto de Malba Tahan em “Lendas do Céu e da Terra” (Ed. Borgoi. São Paulo ‑ SP /1ª edição ‑ 1939, págs. 16 e 17)

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