A consagração a Maria e as outras devoções

Saiba como conciliar a consagração a Jesus em Maria com as devoções particulares a Jesus Cristo a Virgem Maria, aos anjos, aos santos.

Saiba como conciliar a consagração a Virgem Maria com as devoções particulares a Jesus Cristo a Virgem Maria, aos anjos, aos santos.Juan Diego e Nossa Senhora de Guadalupe

Quando vamos nos consagrar ao Senhor Jesus Cristo e a Santíssima Virgem Maria, podem surgir dúvidas de como viver a consagração, especialmente em relação às nossas devoções particulares, aos anjos, aos santos, a Nossa Senhora, a Jesus Cristo. Muitas pessoas pensam que terão que abandonar suas devoções depois da consagração ou ficam em dúvida de como vivenciá-las como consagradas a Jesus e a Maria. Antes de responder estas questões, temos que ter o conhecimento da primeira verdade da consagração, ensinada por São Luís Maria Grignion de Montfort, no “Tratado da Verdadeira Devoção a Santíssima Virgem”: o Senhor Jesus “deve ser o fim último de todas as devoções, de outro modo seriam falsas e enganadoras”1. Sendo assim, as devoções aos anjos, aos santos, inclusive a Virgem Maria, são todas válidas, desde que Jesus Cristo seja o seu fim último. O que muda depois da consagração é a nossa relação com o Senhor e Nossa Senhora, e com as outras devoções, que estarão todas ligadas a Jesus Cristo e a sua Mãe amorosa.

A consagração a Virgem Maria e as outras devoções

A consagração se diferencia das outras devoções porque nela entregamos tudo a Jesus Cristo, pelas mãos da Mãe de Deus: nosso corpo, nossa alma, nossos bens exteriores ou materiais, nossos bens interiores e espirituais2. Consequentemente, os valores satisfatórios, ou impetratórios,3 e os valores meritórios4 de nossas orações e boas obras não nos pertencerá mais. Estes pertencerão a Virgem Maria. Os valores satisfatórios ela os comunicará a quem ela entender que será para a maior glória de Deus5. Quando ao valores meritórios, ela os conserva, aumenta e aperfeiçoa6. Na prática, podemos ter amor e devoção aos anjos e santos, aos títulos de Jesus e de Maria e também dirigir a eles nossas orações, preces, súplicas; fazer jejuns, penitências, sacrifícios; mas, não podemos oferecer seus valores por nós mesmos ou por outras pessoas. Pois, Nossa Senhora é quem vai dispor desses valores a favor de quem mais necessitar, apresentado-os ao seu Filho Jesus Cristo, pois ela nada reserva para si7. Isto posto, não temos que abandonar as nossas devoções depois da consagração, ao contrário, devemos cultivá-las ainda mais, pois estas são boas oportunidades de crescer no amor a Deus e de entregar a Jesus Cristo e a Maria Santíssima nossos tesouros espirituais a favor da salvação das almas. Estas devoções certamente alegrarão os Corações de Jesus e de Maria.

Não ficaremos desamparados se entregamos tudo a Jesus por Maria?

Saber que os valores de nossas orações, preces, súplicas, jejuns, penitências, sacrifícios, e boas obras não nos pertencerá mais e que não poderemos oferecer estes, por nós mesmos ou por outras pessoas, pode nos desencorajar de fazer a consagração. Entretanto, não devemos pensar que nós, os nossos amigos, parentes ou benfeitores, seremos prejudicados pelo fato de nos consagrar sem reservas ao serviço de Nosso Senhor e da sua Santa Mãe. Pensar isso seria “injúria ao poder e à bondade de Jesus e Maria, que saberão muito bem socorrer os nossos parentes, amigos e benfeitores com o nosso pequeno tesouro espiritual, ou por outros meios”8. Além disso, sempre podemos colocar intenções às nossas devoções, práticas espirituais e boas obras, ou seja, pedir a Virgem Maria por nós mesmos ou por outras pessoas, vivas ou mortas, embora a aplicação do valor dessas orações dependa da vontade da Santíssima Virgem9. Todavia, não devemos desconfiar de Jesus Cristo e da Virgem Maria por causa desta dependência, pois o Filho de Deus e sua Mãe Santíssima nunca se deixarão vencer em generosidade. Podemos ainda pensar que, entregando o valor das nossas orações e boas obras para que Nossa Senhora as aplique a quem ela quiser, talvez soframos muito tempo no Purgatório. A este respeito, São Luís Maria pergunta: “uma alma fervorosa e generosa, que preza mais os interesses de Deus que os seus; que dá a Deus, sem reservas, tudo o que tem, sem poder dar mais; que só anseia pela glória e pelo Reino de Jesus por Maria; que se sacrifica inteiramente para o conseguir; essa alma generosa e liberal haverá de ser castigada no outro mundo por ter sido mais liberal e mais desinteressada do que as outras? [A esta questão, o Santo responde:] De modo algum: é para com essa alma […] que Nosso Senhor e sua Santa Mãe são mais liberais neste mundo e no outro na ordem da natureza, da graça e da glória”10.

A vivência das devoções dos consagrados a Nossa Senhora

Algumas pessoas pensam que depois da consagração deverão abandonar as suas devoções particulares, mas isto é um terrível engano. Se temos grande devoção por São Miguel Arcanjo, devemos continuar a cultivar essa devoção, a não ser que esta comece a sobrepor o nosso amor pela Virgem Maria ou, o que é pior, a Jesus Cristo. Existe uma hierarquia na Igreja terrena e também na Igreja celeste. Sendo assim, as nossas devoções devem respeitar estas hierarquias. Nossa devoção mariana, como o Terço de Nossa Senhora, ou a Jesus, como o Terço da Divina Misericórdia, não deve estar acima da participação da Santa Missa. Da mesma forma, a devoção aos anjos e aos santos não pode estar acima de nossa devoção à Santíssima Virgem, pois ela é a Rainha dos Céus e da Terra. Do mesmo modo, a devoção a Mãe de Deus não pode suplantar o nosso amor a Santíssima Trindade: Pai, Filho, e Espírito Santo. Respeitando esta ordem das coisas, podemos continuar e até aprofundar nossas devoções particulares, desde que Jesus Cristo seja o fim último destas11 e não um fim em si mesmas. Na prática, todas as nossas devoções, todo o nosso amor, aos anjos e aos santos, até mesmo para com a Virgem Maria, devem ter como fim último a pessoa de Jesus Cristo. Todas as nossas devoções devem ter como finalidade amar o Filho de Deus, pois Ele nos amou primeiro e por nós se entregou à morte na Cruz, para pagar pelos nossos pecados12.

A consagração e as devoções a Nossa Senhora

A consagração a Jesus em Maria não impede as devoções particulares aos títulos e festas de Nossa Senhora. Ao contrário, como consagrados, devemos amar ainda mais a Santíssima Virgem e prestar a ela o devido culto, que não é de dulia (veneração), devido aos anjos e santos, nem de latria (adoração), devido somente a Deus, mas é de hiperdulia, ou veneração em grau mais elevado, devido somente à Mãe do Senhor. Este culto a Virgem Maria é muito superior ao devido aos anjos e santos, mas infinitamente inferior que o devido a Deus. Entretanto, como a consagração é uma devoção a Jesus por Maria, não devemos equiparar esta, colocar no mesmo nível, com outras devoções a Santíssima Virgem. A consagração é superior às outras, primeiramente porque é uma devoção a Jesus em Maria, ou seja, ao Filho de Deus e à sua Mãe Santíssima. Ademais, “o principal mistério que se celebra e honra nesta devoção é o mistério da Encarnação, no qual se pode ver Jesus em Maria, encarnado no seu seio”13. A consagração também se distingue das outras devoções a Virgem Maria porque ela é uma “perfeita renovação das promessas do Batismo”14, no qual rompemos com a escravidão do pecado e do demônio e nos fizemos escravos de Jesus Cristo15. Na consagração, nos fazemos livremente e ao mesmo tempo, escravos de Jesus e de Maria, mas por prudência é melhor dizer escravos de Jesus em Maria16.

O devido lugar da consagração e das devoções particulares

Assim, depois de conhecer um pouco mais o que é a consagração, ou escravidão de amor, a Jesus em Maria, podemos viver com mais tranquilidade esta devoção, que tem o Filho de Deus como centro e, ao mesmo tempo, como fim último. Esta não nos impede de viver as nossas devoções particulares, aos anjos, aos santos, e a Virgem Maria, desde que também tenham Jesus Cristo como centro e fim último. As devoções aos anjos e aos santos são oportunidades de pedir por nossas intenções, de amar neles Jesus e Maria e confiar-lhes os valores das nossas orações. Quando às devoções marianas, como novenas e outras orações, estas são muito salutares, mas não devem estar acima da vivência da consagração a Jesus em Maria. Isto significa que as práticas da consagração, como o Terço, ou Rosário, devem estar em primeiro lugar em em relação a essas devoções. Esclarecemos ainda que não devemos nos preocupar tanto com o dia que vamos nos consagrar, se na festa de Nossa Senhora de Guadalupe, ou na solenidade da Imaculada Conceição de Maria, ou ainda em outra data mariana, pois não nos consagramos a um título, ou nome, do Senhor e de Nossa Senhora, mas à pessoa de Jesus Cristo e da Virgem Maria. Claro que podemos escolher a data conforme a nossa devoção, mas também podemos nos consagrar em outra data, talvez consagrar-nos com um grupo da nossa comunidade, e continuar com az mesmaz devoções particulares. Como a consagração é feita conjuntamente a Jesus e a Maria, podemos até nos consagrar em uma festa ou solenidade do Senhor. Podemos ainda, apesar de não ser comum, fazer a consagração no dia de um santo de devoção, como São Luís Maria ou Santa Teresinha, pois estes foram exemplos extraordinários de entrega total ao Filho de Deus e a sua Mãe Santíssima. Com muito amor e confiança, especialmente as pessoas que se preparam para a consagração ou renovação, nos recomendemos a Jesus Cristo e a Virgem Maria para que vivamos bem a nossa consagração e as nossas devoções particulares. Nossa Senhora de Guadalupe, rogai por nós!

Natalino Ueda, escravo inútil de Jesus em Maria.

Links relacionados:

TODO DE MARIA. Como entregamos os bens materiais a Virgem Maria?

TODO DE MARIA. Como entregar meus bens espirituais a Maria?

TODO DE MARIA. Como viver a consagração a Maria?

Referências:

1 TVD 61.

Idem, 121.

3 O valor satisfatório, ou impetratório, de uma boa obra é a satisfação da pena devida pelo pecado, ou o valor para alcançar uma graça (TVD 122).

4 O valor meritório, ou mérito, consiste em uma boa ação merecer a graça e a glória eterna. Entregamos a Nossa Senhora os nossos méritos, as graças e virtudes, não para comunicá-los a outras pessoas, pois estes não podem ser dados a outros, mas para que ela os conserve, aumente e aperfeiçoe (TVD 122).

5 TVD 122.

Idem, ibidem.

Idem, 148.

Idem, 132.

9 Cf. idem, 132.

10 Idem, 133.

11 Cf. idem, 61.

12 1 Jo 4, 19-20.

13 TVD 246.

14 Idem, 162.

15 Cf. idem, 238.

16 Cf. idem, 244-247.

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